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Ale vs Graduação: O Confronto Final

Preciso do meu histórico, afobava-se Ale em meio a tanta documentação. O primeiro já estava errado e agora não tenho mais acesso aos meus próprios registros! O que há com o mundo? O rapaz era propenso às constantes questões da existência.

Já sei! Vou contatar a Graduação. Certamente me ajudarão!

Via correspondência eletrônica, toda a situação foi esclarecida devidamente. Havia a necessidade do histórico escolar completo digitalizado para que um formulário de inscrição fosse completado de forma satisfatória ao futuro avaliador. O garoto já não mais se encontrava próximo à faculdade, portanto a versão virtual lhe seria enormemente mais útil. Posto que o histórico é do próprio aluno, caberia a um desequilibrado negar-lhe o acesso.

Na manhã seguinte, a resposta: “O documento final é assinado pelo Supervisor e Diretor Acadêmico, e as páginas são carimbadas, portanto deverá ser retirada a via impressa na Graduação. Aguardo retorno.” Decerto um problema de decodificação, a distância entre requerente e requerido não mostrou-se obstáculo o bastante para exigir o incômodo. Em uma rápida troca de mensagens, Ale clamou por consciência, mas o assistente administrativo não cedeu; pelo contrário, emitiu o documento de toda forma, para que alguém o buscasse antes que fosse destruído. A natureza virá cobrar essas oito folhas.

Bom, pelo visto, vou ter que encontrar alguém que ainda esteja por perto disposto a me ajudar nisso. Quem será?, perguntava-se o jovem Ale, admirando a tela do computador. Conversou aqui, pediu um favor ali, relembrou esse outro, e conseguiu diversos amigos que lhe estenderam a mão. Já sei!, pensou o mocinho, com gesto ilustre. O diretor. As relações profissionais e acadêmicas entre um e outro já eram de longa data, e incontáveis mensagens foram enviadas por conta de tais laços. Se alguém resolveria um problema rapidamente, seria ele. Lia a nova mensagem, entre outras palavras: “Se já iriam imprimir o documento oficial se eu fosse buscá-lo, imagino que possam enviá-lo a mim sem gastar papel.” Envio feito.

Chegada foi a aurora e, com ela, uma nova promessa de resposta. Sem engano, havia réplica à mensagem, preenchendo o pequeno Ale de alegria e regozijo. Quais palavras terá ele usado? Quais mistérios resolvido? Quais barreiras rompido? Com mãos trêmulas, um clique na mensagem e uma prece silenciosa.

Alexandre, em anexo envio seu histórico. Olhe-o e me diga se era só disso que precisava. Abraços, A.

Houve festa em toda a terra.

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A Chuva em Castamere

“E tu, quem és?”, o infeliz
Orgulho quis falar
“Muda-se o manto, e o gato não;
Não vejo a quem curvar”

“Vermelho ou ouro, a cor não diz
Das garras de um leão.
São fortes as que guardo em mim
Bem como as vossas são”

E disse então, pois disse então,
O lorde em Castamere
E a chuva chora em seus salões
Mas sem ninguém a ouvir

Sim, todos choram em seus salões
Sem almas para ouvir

(George R. R. Martin – tradução minha)

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Missing Soul

Oh, Nightingale’s soul, alike my own
You’ve gone all through the night amidst your cries
You’ve moaned as tears came rolling down your eyes
Perhaps I’ve found in you someone who’s gone!

Perhaps I’ve found in you a dream that hid
That slowly merged and locked itself in Pain…
Or maybe you’re a soul, a soul in strain
A soul that wants to love, but never did!

And hearing all this pain… I cried as well!
I wondered if, by feeling, I could tell
That sorrow has been everything but choice!

The night has heard it all and then you’ll go
As I’ll remain down here and think “my soul
Somehow has found its way out through your voice!”

(A. Soares)

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My Lover

When my lover lost her mind
She was locked and left to dream
With the bright moon in the sky
And the other in the sea

In her dreams, she’d stay unshy
Living all she could have been
Wished to fly up to the sky
And descend into the sea

As her tower grew, so high
Out her windows, she could see
She was closer to the sky
She was farther from the sea

Once the night came, she would try
Her great dream-inspired wings
She wanted to reach the sky
She wanted to touch the sea

Like an angel, she would fly
She’d wake up and live those dreams
As her soul rose to the sky
All the rest sank down the sea

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2025

Sábado, meio de maio. Supermercado cheio. Um corredor.

A criança chorava baixinho, avermelhando a pele clara. Sozinha, aproveitara a multidão e saiu passear, se perdendo. Não tinha cinco anos completos. Dela, só saía uma palavra, em tom de pergunta.

“Papai?”

Um leve desespero tomou conta de suas pequenas mãos, que tremiam por dentro. O peito esquentou e a cabeça parecia mais leve. Estava ali sozinha, e quem sabe quando voltaria para casa? Se é que voltaria! Talvez nunca mais fosse encontrada, esquecida no canto por tantos adultos passando em volta sem percebê-la. Começou a se arrepender de ter ido para longe demais do carrinho, num sentido aventureiro mal fadado. Enquanto os sapatinhos davam pequenos passos trêmulos, a memória infantil foi ativada. Mas em vez de tentar lembrar o caminho à família, lembrou da família, apenas. Sorriu por dentro.

Ninguém sabe ao certo o que pensa uma criança. A natureza a obriga a guardar o que pensa e sente até que encontre forma de se expressar além de choro. Mas o coração bate como sempre, e sente o que qualquer adulto sente. E naquele momento, sentia falta. Queria voltar no tempo, para casa, onde sempre foi feliz. Dormir nos braços do pai, ser carregada até a cama e sentir cócegas da barba ao receber um beijo de boa noite. No nariz. Na testa, arranhava. Gostava de viajar, de passear no parque, chutar folhas e pedrinhas. Sentia saudades de casa, nem sabia quanto tempo havia passado longe de lá. Tanto carinho recebeu, desde que chegou. E ali, numa fração de segundo, ela estava perdida. Andou demais, por que fez isso? Lembrou de almoços, da cama branca onde passou tantas noites, da harmonia que tinha em casa. De tudo o que aprendia, de tudo o que queria aprender. No meio das memórias, trechos das músicas que ouvia em casa, sem saber o que diziam, ou as que o pai tocava ou sempre entoava, e se acalmava. O peito parecia ter se acalmado e as lágrimas pendentes se dispersaram. Um toque.

Uma senhora o encostou nos ombros, e abaixou até o nível de seus grandes olhos negros.

– Você está perdido? Onde está a sua mãe?

A criança respirou fundo e formulou palavras.

– Eu tenho dois pais.