Concepção

13:39

A demora na fila do caixa me fez prestar atenção nas outras pessoas em frente. A grávida, o velho de chapéu, os dois homens, a senhorinha e eu. O calor estava demais e o ar condicionado era uma grande mentira. E era inverno, como poderia tal calor? Eu só me abanava com a camisa, irritado.

– Mas que calor, né? – a senhorinha se virou, rindo da minha cara.

– Pois é!

Um barulho forte no banco todo. Alguém ligou os aparelhos e o calor foi embora. Vieram, então, os halogênios.

– Que beleza! – alegrava-se a senhorinha. Eu só ri, olhando para os lados, observando.

Outro barulho forte, na frente do caixa, me assustou. A mulher se irritou com a máquina e a chutou, xingando enquanto entrava passava pela outra porta. Para mim convinha. O velho tomou seu posto e inseriu o cartão. Decidiu que seria cômodo pagar todas as suas contas naquele momento. O primeiro homem conversava no celular, com um sorriso no rosto. O de trás, mais novo, ouvia música e batia o pé no ritmo, com um chiclete na boca. A senhorinha comia uma bala.

13:50

O senhor finalizava as operações e foi-se. O primeiro homem mandou o outro lado ligar dali a pouco, tomou seu lugar. Ao retirar o cartão, a máquina desligou, assim como o ar condicionado salvador.

– Que beleza… – disse a senhorinha, baixinho.

O menino de trás retirou os fones e parou os pés. Olhou para os lados, procurando outro caixa. Todos desligados. As luzes apagadas e a porta giratória imóvel, com todos os funcionários lá dentro. Começou uma gritaria generalizada, tanto dentro quanto fora.

– Meu dinheiro não saiu! – gritava, indignado. – Onde está?!

– Menino, se acalme. Algum funcionário já vem ajudar. – disse a senhorinha, tentando tranquilizá-lo.

– Tá todo mundo lá dentro e a porta não abre.

– Tem sempre uma porta de chave. – soou uma voz. A minha. Todos se viraram. – Eu sou caixa daqui, mas hoje estou de folga. Se explicar lá dentro o que aconteceu, você é atendido antes e mais rápido, porque o caixa daqui de fora parou. Só que vai rápido porque, pela gritaria lá dentro, o povo está ficando nervoso e de quinta só tem um caixa.

– E como faz para entrar? – perguntou o irritado.

– É só falar com o segurança e explicar.

O homem, o menino e a senhorinha saíram da fila e foram até lá e conseguiram se explicar. Antes de entrar, a senhorinha se virou.

– Você também não vem?

– Eu volto depois. Não era nada importante.

Abri a porta e fui para a rua. Ao primeiro passo, houve um tiro lá dentro.

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