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Devil

06:35, o despertador seguia o programado. A janela aberta deixava a fraca luz do Sol entrar, iluminando o grande quarto. Sob a janela, o corpo deu sinais de vida e respondeu ao alarme. Sentando na cama, o garoto desligou a música suave do despertador e tentava se acostumar à claridade. Ainda era segunda, e a semana só começara. Esfregou o rosto e levantou-se, indo ao banheiro.

O reflexo da luz nos azulejos era mais do que os olhos cansados aguentavam. Entrou no banho gelado de todas as manhãs e aproveitou para relaxar e pensar na vida e problemas. Coisa de adolescente metido a maduro. Antes mesmo de completar dezoito, já havia saído de casa, para estudar, entre outras coisas. E não eram os estudos que o preocupavam.

Terminou o banho, vestiu suas roupas e, em frente ao espelho, ficou se observando. Por fora e por dentro. Após escovar os dentes, desceu as escadas e foi à cozinha. Em vez de pegar algo para comer depois, ficou parado, refletindo outra vez, impaciente. Quando estava quase indo à porta, deu meia-volta e foi até a porta do quintal. O frio das sete parecia cortá-lo, ainda mais no inverno. Cruzou a grama e foi ao quarto dos fundos, escondido entre as árvores.

Abriu a porta e olhou bem para todo o quarto. Era consideravelmente grande, mas a experiência de observação do garoto era boa o bastante para o quarto ser especulado rapidamente e com precisão. Uma expressão de desilusão e leve desespero invadiu-lhe tanto o rosto como o coração.

O que ele faria com todos aqueles corpos?

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Concepção

13:39

A demora na fila do caixa me fez prestar atenção nas outras pessoas em frente. A grávida, o velho de chapéu, os dois homens, a senhorinha e eu. O calor estava demais e o ar condicionado era uma grande mentira. E era inverno, como poderia tal calor? Eu só me abanava com a camisa, irritado.

– Mas que calor, né? – a senhorinha se virou, rindo da minha cara.

– Pois é!

Um barulho forte no banco todo. Alguém ligou os aparelhos e o calor foi embora. Vieram, então, os halogênios.

– Que beleza! – alegrava-se a senhorinha. Eu só ri, olhando para os lados, observando.

Outro barulho forte, na frente do caixa, me assustou. A mulher se irritou com a máquina e a chutou, xingando enquanto entrava passava pela outra porta. Para mim convinha. O velho tomou seu posto e inseriu o cartão. Decidiu que seria cômodo pagar todas as suas contas naquele momento. O primeiro homem conversava no celular, com um sorriso no rosto. O de trás, mais novo, ouvia música e batia o pé no ritmo, com um chiclete na boca. A senhorinha comia uma bala.

13:50

O senhor finalizava as operações e foi-se. O primeiro homem mandou o outro lado ligar dali a pouco, tomou seu lugar. Ao retirar o cartão, a máquina desligou, assim como o ar condicionado salvador.

– Que beleza… – disse a senhorinha, baixinho.

O menino de trás retirou os fones e parou os pés. Olhou para os lados, procurando outro caixa. Todos desligados. As luzes apagadas e a porta giratória imóvel, com todos os funcionários lá dentro. Começou uma gritaria generalizada, tanto dentro quanto fora.

– Meu dinheiro não saiu! – gritava, indignado. – Onde está?!

– Menino, se acalme. Algum funcionário já vem ajudar. – disse a senhorinha, tentando tranquilizá-lo.

– Tá todo mundo lá dentro e a porta não abre.

– Tem sempre uma porta de chave. – soou uma voz. A minha. Todos se viraram. – Eu sou caixa daqui, mas hoje estou de folga. Se explicar lá dentro o que aconteceu, você é atendido antes e mais rápido, porque o caixa daqui de fora parou. Só que vai rápido porque, pela gritaria lá dentro, o povo está ficando nervoso e de quinta só tem um caixa.

– E como faz para entrar? – perguntou o irritado.

– É só falar com o segurança e explicar.

O homem, o menino e a senhorinha saíram da fila e foram até lá e conseguiram se explicar. Antes de entrar, a senhorinha se virou.

– Você também não vem?

– Eu volto depois. Não era nada importante.

Abri a porta e fui para a rua. Ao primeiro passo, houve um tiro lá dentro.

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Letra e música

O teatro sempre lota. Procurando diversão ou cultura, as pessoas vão adentrando e se acomodando. Mesmo de longe, é possível ouvi-las. As conversas, nem tanto. Só o burburinho, a inquietação pré-espetaculo. Após o terceiro sinal, as luzes se apagam e os holofotes se esquentam.

Ao movimento do maestro, as notas se agrupam e a música ecoa pelo salão. É hora de entrar em cena e enfrentar a multidão.O pulso continua calmo de tanto treino e o fôlego toma forma. Ao abrir a boca, as palavras fluem, subindo e descendo oitavas, declamando e gritando páginas e mais páginas de texto, lidas e relidas incessantemente até o decoro. A reação do público é sempre a mesma, risos e aplausos. Os agentes mudam, mas as ações continuam. Não há muito que esperar de novidade, a não ser que um colega mude o texto espontaneamente. Certamente seria interessante, desde que mais uma vez respondido com fervor da plateia. Passam-se atos e árias, até o clímax.

A história chega ao fim. Pelo menos a encenada, já que a conclusão cabe a quem assiste. As luzes se acendem novamente e entre os aplausos – sempre em pé, a música volta a tocar, para que todo o elenco, já revertido em simples atores, possa agradecer. A música cessa de vez e a plateia continua maravilhada. Incluindo eu, que passo a vida perto do palco sem estar nele.

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De saco cheio.

Parte I
Parte II

Então, meu avô morreu. 1932-2008, faça as contas.

Não sou muito de velórios, até porque não há o que fazer. Costumo, então, ficar nos fundos, com o café de sempre. O qual eu mesmo fiz na ocasião, vale ressaltar. Eu conversava sobre algo aleatório (fundamental pra acordar), quando a oração em grupo começou lá na Sala Um. Ouvi os ecos das repetições, mas fiquei na minha. Também não sou de rezar. Eis que surgiu da tal Sala Um meu tio, acompanhado de uma elegante senhora de collant e chinelos azuis. Logo após largar seu saco de mistérios em cima do vovô, ela decidiu que era hora de petiscar. E cá estamos nós, no café.

O saco foi direto para o lixo; nunca se soube o que havia lá dentro. Ela comeu um biscoitinho, e mais um e outro pra casar, tomou adoçante com gotas de café e sentou-se em uma das cadeiras. Cadeira esta ao lado de uma tia. E dá-lhe conversa de bêbada. “Eu já saí com muita gente conhecida dessa cidade.” Nomes guardados eternamente em sigilo. Já na madrugada, ela entrou no banheiro, pra se refrescar, o velório ainda em curso. Meia hora depois, onde está a Cida? “Ainda no banheiro, de certo.” Outra tia foi investigar. Antes de cruzar a porta e olhar pra dentro, já se sentia o cheiro da fumaça e o som da água escorrendo. A cena era terrível; a reação, de escândalo e repulsa. A indigente estava sentada no chão, ensopada, fumando de pernas abertas, arejando a boceta. Cabelos caídos grudados nos ombros, visão grotesca e ofensiva.

Passado o choque, a tia deu pra trás, voltou e ficou quieta. Cida saiu do jeito que entrou, mais os cabelos grudados, bem a tempo para presenciar a entrada de três policiais, chamados durante o banho de torneira. “Vamos.” “Não, eu ‘tô aqui com os meus amigos!” No fim de “amigos”, ela usou suas mãos lustradas pra se agarrar nos braços da primeira pessoa que encontrasse. Minha mãe. As duas gritavam, uma de susto e outra de loucura. “Se alguém encostar em mim, eu arranco a roupa.”  Como todo policial sabe, a chave pra uma situação dessas é única. Uma chave de braço no pescoço da infeliz, que largou minha mãe e largou mão de resistência.

No banco da viatura, partiu para a noite, sem dizer tchau ou pegar seu saquinho.

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Boom.

Margarete era uma executiva com um cargo de respeito em São Paulo, uma casa grande e bonita no interior e um marido com uma amante. Sempre que ela viajava, o marido ficava sozinho. Até a amante chegar pra passar o fim de semana. E finge que tá tudo bem.

Mas na verdade, Margarete sabia do que se passava em casa. Por isso, numa madrugada, ela voltou antes e se infiltrou, feito um rato, na própria casa, jurando vingança. Ligou o gás, esperou se espalhar bem e decidiu mandar os dois pelos ares. Ligou o fósforo, jogou e saiu correndo. Houve uma explosão, reduzindo a casa inteira a pedaços.

Margarete explodiu junto e o marido estava na casa da amante.

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O facão.

Dia desses, no banco.

– Minha senhora, consta um saque aqui na sua conta.
– Eu não fiz saque nenhum.
– Como não?
– Não tirei nenhum dinheiro. Eu tenho mais que isso.
– Então, onde é que está?
– Você não tá entendendo. O meu filho, ele é louco. Acorda de madrugada e corta a cama com o facão.
– A senhora está me ameaçando?
– Não.
– Pois então, encontre o dinheiro.

Sete dias depois, no banco.

– Ah, sabe aquele dinheiro? Eu lembrei. Meu filho tirou pra comprar uma moto. Agora, fica pulando com ela que nem um viado no sítio.